junho 2, 2007

sala espera hospital italiano Br Tenho mau feitio. Antes de proporcionar as exclamações dos que me conhecem, que vão largando aquando da leitura deste post vários “Ah, pois tens!”, concedo a informação que muito gáudio provoca a quem dedica parte considerável do seu tempo se deleitando com minhas desgraças: confirmo. Sim, é verdade. Fui a outra padaria e a mulher tinha um corte com mau aspecto (sim, há cortes com bom aspecto! aca, que não deixam passar nada…) no dedo, e pegava livremente, fazendo jus a um dos termos da famosíssima divisa gaulesa, com toda a liberdade, no pão, no dinheiro, e nas peles que recebiam troco. Viva a higiene (tinha escrito viva a França, mas achei que ficava mal). Ou algo do género.

Tenho mau feitio. Além da constatação do óbvio, estas linhas não servem outro propósito que não o da espécie de confissão retorcida e essencialmente inútil, pois que a utilidade residiria na tentativa de afastar pensamentos maldosos quando estes ocorrem.

Sou irritadiça em certos momentos. Pois, bem vos ouço, e quem não o é? Não faço ideia. Ou melhor, conheço indubitavelmente pessoas que o não são, outras peritas na arte do disfarce.

Pois que me encontro numa sala de espera de consultório, esse local fabuloso e propenso à observação clínica além da óbvia que antecede. A minha. Não me irrita propriamente a espera,  vantagem de ser uma fanática da leitura (o meu único vício são), que me poupa tempos mortos.

Abomino as… carreiras de cadeiras. Sabem, aquelas que estão unidas? Ah, abomino… cada troca de pernas de um dos expectantes com assentadura nesta coisa assemelha-se a um espasmo epiléptico. Que me irrita, claro. Porque me deixa mareada. Claro que o ficar mareada se deve muito mais ao mau feitio do que a um episódio de motion sickness.

Mas não basta. O monsieur sentado a meu lado está particularmente desconfortável e ansioso pela sua condição de expectante, (que pensar e temer se expectante fosse por nove luas até parir – como diz minha tia, se fossem os machos a parir, a humanidade extinguia-se num instante), pelo que se mexe como se tivesse pulgas. Buscando alívio para o seu nervosismo, dedica-se afincadamente a uma das partes do corpo que mais pena quando os nervos se destrambelham. Não…que pensavam? Não se peidou monumentalmente. As unhas, senhores, as unhas. Não as roeu, que isso seria estragar a cuidada manicure. Inicia pois, a escassos centímetros da minha pessoa, minunciosa limpeza das ditas cujas. Não olhes, continua a ler, vá, não sejas parva, és mesmo picuinhas, porra.

Pois, poderia perfeitamente permanecer indiferente a tal actividade, desde que fosse surda. Estalidos acompanham o acto de remoção da sujidade das unhacas. Algo longas.

Aproveito para informar que nem todos os machos lusos têm bigode e, alas, a unhaca longa do mindinho (esse precioso apêndice fruto da evolução, que se desenvolve de forma a auxiliar na higiene auricular) está em franca extinção. E depois ainda me perguntam porque creio em Deus.

Eugénio

maio 11, 2007

As amoras

O meu país sabe as amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.

Eugénio de Andrade (Portugal)

Hey

abril 23, 2007

Ó minha gente, com esse título do último post e a vossa ausência, parece que estamos de luto :P

meia haste

março 26, 2007

sem-titulo.jpg

(Foto de M. Vaz, www.passoapasso.weblogs.com.pt)

Era um concurso televisivo, com participação de telespectadores. Um concurso, senhores, não uma eleição efectiva. O maior de entre um conjunto de pessoas que partilham uma nacionalidade. Escreverei, se for capaz, noutro local, as impressões que me foram causando os diversos programas de debate  e cada uma das reportagens biográficas sobre as personalidades que ficaram nos dez finalistas. Nesses dez, nenhuma mulher.

Ontem ao serão foi a final. Aguardavamos ansiosamente. Não por se tratar do dito concurso, a que não costumamos assistir, mas por curiosidade sociológica. Que sabe a população desse país sobre a sua história. O resultado teria, para mim, profundo significado no que diz respeito ao olhar presente dessa mesma população.

Foram anunciando, começando na décima posição, os resultados finais. Chegando ao quinto, a minha alma estava já mergulhada num assombro gelado. Sabia que tal resultado era muito possível, mas gostamos sempre de continuar a acreditar. Apesar de tudo. Ficam pelo caminho os poetas maiores, que me levam a lágrimas pela beleza da lusa língua. Ficam os reis, que reis tendo sido, não sabiam que fosse a democracia.

Após um terceiro lugar que constitui o único sorriso tímido da noite, e de que já falarei, ficam os dois últimos homens. Polos opostos. O vencedor foi António de Oliveira Salazar, o presidente do Conselho de Ministros, que liderou Portugal durante c. 40 anos. O Portugal “orgulhosamente só”. Em segundo lugar, Álvaro Cunhal, líder comunista, principal figura opositora do regime fascista (pois sim, menos fascista que outros, mas não pretendo aqui fazer resenha histórica). Caiam em cima de mim, mas tout court, nenhum dos dois acreditava em liberdade. Cunhal lutou por ela, mas seguia modelos unipartidários. E defendia-os. Salazar começou por ter uma boa actuação a nível económico. Morreu sem bens pessoais, cofres do estado relativamente recheados. Cunhal sofreu a perseguição, prisão, tortura, exílio.Nasceu em família de posses, escolheu olhar para quem não teve a mesma sorte. Demónios e anjos, habitantes de todos nós.

Aristides de Sousa Mendes, terceiro lugar atribuído por almas gentis. O cônsul português em Bordéus. Segunda Guerra Mundial. Desobedecendo repetidamente às ordens recebidas pelo regime português, assinou vistos de pessoas a quem esperava deportação e execução às mãos do regime nazi. Mais de trinta mil pessoas. Demitido pelo regime português, que entretanto envia funcionários a França para que o tragam de volta, lidera com a sua viatura uma coluna de refugiados para a fronteira espanhola, assegurando-se da passagem efectiva.

Demitido, sem direito a reforma, a sua numerosa família (12 filhos) sobrevive em Lisboa com a ajuda da comunidade judaica. Morre numa clínica gratuita para pobres. Não possuindo fato (terno) próprio, é enterrado com uma túnica de franciscano.

Em Israel é plantada uma floresta com o seu nome. Dez mil árvores, dez mil almas salvas de confissão judaica.

Nota:  Afonso Henriques. Democracia no século XII, convenhamos…  Afonso Henriques, no entanto, pelejando a vida toda e expulsando mouros, conquista Lisboa e redige um documento em que se lê que os mouros da cidade são bem vindos para lá permanecer e livres de continuar a professar a sua fé, a menos que desejem engrandencer a igreja de Deus. Século XII.

Hoje às 11:30 da manhã saía da sala de aula quando vi uma japonesinha conversando com um brasileiro. Ela falava bem o português e parecia muito simpática. Peguei meu carro e manobrava quando a vi novamente, desta vez subindo na bicicleta. Entusiasmada abri a janela e disse: Oi, oi. Vem vá. Ela veio, sorrindo. Perguntei-lhe então: De que cidade você é? Okinawa, respondeu. Ah, que legal! Eu tenho uma amiga brasileira que mora e leciona no Japão, em Osaka. Ela me mandou uns pincéis para sumiê, mas ainda não chegaram. Ah, disse a garota sorrindo. Eu trabalho aqui e apontei o centro onde ensino. Sou professora de italiano. Ah, mas você é italiana, perguntou a japonesinha. Não, não. Sou brasileira.
Depois foi cada uma para o seu lado.
Só mais tarde me dei conta da conversa doida! Abordei a garota de um jeito tão absurdo e ela achou tudo tão natural.
Deve morar há um bom tempo aqui. Ou já conhece minha fama de doida.
ps: cheguei em casa agora, às 19:00 hs e não é que os meus pincéis tinham chegado?!

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Certo dia resolvo acompanhar minha mãe até à farmácia. Era apenas uma desculpa para experimentar a sociabilidade do cachorro, levando-o pela vila, onde inevitavelmente me depararia com várias pessoas e, alas, animais. A coisa correu muito bem. Sempre trela curta, nesta minha nova etapa de educadora de cães, tarefa árdua e amorosa a aplicar por necessidade, eu que fui uma spoiler a vida toda. A vida toda, até me deparar com um animal que de submisso ou obediente não tem nada. Mas que graça tem então ter um animal que nos obedece?, escuto sobretudo de amantes felinos. Ah, meus amigos, assim à partida estaria de acordo convosco, também amo felinos, sua independência e teimosia, altivez. A graça surge quando esse animal tem eventualmente mais força que nós, é dominador e está-se a borrifar para os nossos pedidos. Aí tornamo-nos fervorosos adeptos da filosofia de matilha. O meu segundo nome a partir de hoje será alfa, prazer em conhecer-vos.

Tornando ao passeio (felizmente pouco higiénico, não tive de andar a recolher presentes). Enquanto a mãe aguarda a sua vez na fila, permaneço cá fora, num ponto estratégico, ensinando-o o ficar junto de mim, sentado, tentando acalmá-lo relativamente à movimentação da estrada e transeuntes. Corre tudo muito bem, ele porta-se excelentemente e eu babo-me de orgulho, não sei bem se dele ou de mim.

Várias pessoas param junto a nós, a maior parte elogiando a beleza do cão, fazendo festas, outras estancando pensando se devem passar junto, perguntando se morde, etc. Não. Mas baba, eventualmente.

Aproxima-se então um senhor velhote, que se desloca com uma bengala. Vem com um sorriso doce, que eu retribuo.

Olha para mim durante um bocado e depois pergunta se é bócio.

Não devo ter percebido bem.

Como?

É bócio, não é? Ah pois é, de certeza…

Fico verdadeiramente à rasca. Caramba, Deus do céu, estou muito pior do que julgava! Devo estar tão gorda que  tenho duplo pescoço. Engulo em seco e respondo timidamente que não, não é bócio, mas até me preparava já para lançar à laia de desculpa que, apesar de não ser bócio, tive de facto alguns problemitas hormonais.

Ah, mas que estranho, era capaz de jurar que é bócio. O meu filho tinha um igualzinho!

E partiu, apoiado na sua bengala, depois de nos saudar.

A constatação demorou algum tempo a chegar à minha massa cinzenta. Boxer. Bócio.

Ainda assim cheguei a casa e fui até ao espelho para verficar o queixo. Dupla só a minha estupidez mesmo.

pequeninos

março 7, 2007

Às vezes, quando moramos fora do país da gente nos sentimos pequeninos. No filme Babel há a cena do policial interrogando a empregada mexicana na fronteira que é um bom exemplo.
O Bush chega amanhã ao Brasil. E pela arrogância e tamanho da comitiva e toda a tralha que traz é prá gente se sentir bem pequenininho.
Ser humilhado é uma merda, mas na casa da gente é pior, né?

fevereiro 28, 2007

O celular 

Ahhh…aqui estou eu novamente. Peço desculpas às minhas amigas pela atitude blasé. Enfim, o retorno. Estou lendo um livro,que acredito já citei aqui.I dentidade. Livro interessante, instigante. Estou numa parte que o autor fala sobre a internet e toda a tecnologia virtual que faz o homem se sentir parte de uma comunidade. Para ele, esse sentimento cria uma ilusão de intimidade e um simulacro de comunidade. Pode até ser verdade isso, mas sabe que até gosto de sentir essa ilusão? O que seria de mim sem esse vínculo virtual que me alimenta e me mantém em contato, mesmo que ilusório, com um mundo que não faço mais parte? O autor acrescenta uma observação feita por Andy Hargreaves, um professor de educação e observador da cena cultural contemporânea, que achei interessante: “Em aeroportos e outros espaços públicos, pessoas com telefones celulares equipados com fones de ouvido ficam andando para lá e para cá, falando sozinhas e em voz alta, como esquizofrênicos paranóicos, cegas ao ambiente ao seu redor. A introspecção é uma atitude em extinção. Defrontadas com momentos de solidão em seus carros, na rua ou nos caixas de supermercados, mais e mais pessoas deixam de se entregar a seus pensamentos para, em vez disso, verificarem as mensagens deixadas no celular em busca de algum fiapo de evidência de que alguém, em algum lugar, possa desejá-las ou precisar delas.”Apenas uma observação. O professor Hargreaves definitivamente não conhece o Japão. Introspecção aqui é que não falta. Tá certo que aqui os celulares estão nas mãos em todos os momentos, quando não pendurados no pescoço, mas acredito que aqui os celulares também ajudam as pessoas a se esconderem de si próprias. E outra coisa: aqui é proibido usar celulares dentro de transportes públicos. No Brasil, a pessoa atende e fala da sua vida toda em alto e bom tom, sem qualquer inibição.  “Oi  Zé, e aí? Beleza? Pois é…você perdeu a festa ontem. Bebi todas e ainda vomitei no chão da casa do Cláudio…e ainda tinha umas minas da hora…blá…blá…blá…”

Inauguro mais uma categoria em nosso blog. Ops.
Todos nós damos fora em vários momentos do dia e da vida. Domingo assiti a cerimônia da entrega do prêmio Oscar e gelei logo no início quando Ellen De Generis (a host) disse: Puxa, que bacana, tantos mexicanos indicados… E começou: Penelope Cruz, etc, etc. A câmera pegou a Penelope na hora e a cara não foi das melhores…Confundir um mexicano com um outro latino americano até que tudo bem, mas uma espanhola com um uma ex colônia, não sei não….
Mais tarde no show a Ellen pediu desculpas, coitada.
Eu já devo ter dado milhões de foras desses, é horrível. Sorvete na testa mesmo.
Uma vez, porém, em Roma, um vendedor de camisetas cismou que eu era norte-americana. Quando perguntei o porquê, me disse que era porque eu vestia jeans e camiseta!!!
Será que para ser reconhecida como brasileira tinha que vestir (ou não vestir) o quê???
Minha mãe levou uma bronca de um indiano (ou será paquistanês, ih, troféu na testa prá mim…) em Londres quando era bem novinha. Ele a recriminava por usar roupas ocidentais. Pelo tom da pele e traços faciais minha mãe passa fácil por indiana.
Minha irmã já foi confundida com uma alemã. E isso em Portugal. Uma atendente de loja se dirigia a ela em inglês e ela respondia em português brasileiro. O engano talvez se devesse por ela estar acompanhada de um amigo alemão, que morava no Brasil, mas que tinha passado a infância em Portugal, portanto falava português com sotaque de Portugal. Claro que o biotipo de minha irmã (que é loira, branquinha e usa óculos) é o de uma judia polonesa, mas o engraçado é que a vendedora continuava no inglês e minha irmã insistia no português.
É incrível como a língua não ajuda nada às vezes! Acho que usamos demais os olhos e pouco os ouvidos.
:D

interieur-patisserie-bigot-amboisecom.jpg Maison fondée en 1913. Eh bien..

.taberna-alentejanadoweblogcompt.jpg Tasca, típica, nem mais… Digo eu que lá se deve manjar bela açorda ou arroz de tomate com carapauzinhos fritos. Ou arroz de feijão. Hum…

Manguito pour vous
Por esta banda há muito quem fuja da aguinha, digo eu, excepto da de perfume. Em qualquer tasca de Portugal, por mais moscas que esvoacem, por mais sujo que o vidro do expositor de pastéis de bacalhau e rissóis esteja, pega-se nos ditos cujos com uma tenaz, essa fabulosa invenção, e atrevo-me a dizer que não é muito bem visto pegar directamente em comida e dinheiro, de seguida, ou em simultâneo, que Deus Nosso Senhor nos brindou, na maior parte dos casos, com duas mãos. Aqui uma prestimosa senhora na padaria não perde tempo munindo-se de luva de plástico, já estou como o outro, que não acreditava em fantasmas nem em germes, porque nunca vira nenhum dos dois. De seguida vêm os troquinhos, pois claro. Mas isso viria eu a constatar ser a mais inocente das badalhoquices. Quando a senhora da padaria se corta e sangra copiosamente, quiçá após trinchar um pão de forma, que as coisas querem-se já prontas e práticas, continua servindo o pãozinho aos clientes, que não se mostram chocados. A pessoa que me acompanhava ria à gargalhada perante a minha boca aberta, aproximando-se devido à minha palidez crescente, se desmaiasse estava ali para me amparar. Felizmente não entraram moscas. Na boca dele, claro. E talvez nem tenham entrado na Patisserie, que a finesse obriga a que se tenham dispositivos eléctricos destinados a electrocutar as esvoaçantes mosquinhas. Mas o sangue escorrendo do corte não faz mal.
Pouco tempo depois, aguardando meu irmão que chegaria de comboio a Montpellier, um gajo passa junto da estação, que como sabemos, costuma ser um local asseado, e vai degustando uma tarte de amêndoa, sem papelinho por baixo. Eis quando senão repara que tem o atacador solto, e ei-lo fresco da silva, pousando a tarte num beiral de janela coberto de caca de pombo, agachando-se e compondo a toilette, não vá ele cair no meio da sujidade da rua. Na minha estupidez penso, Olha que porco, não podia ter colocado a tarte no caixote do lixo ali ao lado? Está calada que fazes bem melhor, qual deitar fora qual quê, depois do sapato atadinho, a tarte segue goela abaixo, acompanhada de nutrientes extra que não vinham na receita original.
Isto já soa a saiolice da minha parte, bem sei, mas não sou nova em andanças, e devo dizer que aqui encontrei o conceito de higiene mais original de sempre.
Nesta residência é estrictamente proibido fazer barbecues, ah como abomino o estrangeirismo flatulento, ainda que cada casa esteja bem isolada em relação à seguinte, e não há por cá os ventos de Sines, colocar antenas, parar o carro à porta para descarregar meia tonelada de coisas, nem que seja por alguns minutos, e uma série de coisas que ainda não pude ler por estarem em letra muito reduzida, à entrada.
Ando com ganas de fazer uma sardinhada com pimentos assados. Vou encher-lhes a branca roupa estendida de odores honestos.

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