Tenho mau feitio. Antes de proporcionar as exclamações dos que me conhecem, que vão largando aquando da leitura deste post vários “Ah, pois tens!”, concedo a informação que muito gáudio provoca a quem dedica parte considerável do seu tempo se deleitando com minhas desgraças: confirmo. Sim, é verdade. Fui a outra padaria e a mulher tinha um corte com mau aspecto (sim, há cortes com bom aspecto! aca, que não deixam passar nada…) no dedo, e pegava livremente, fazendo jus a um dos termos da famosíssima divisa gaulesa, com toda a liberdade, no pão, no dinheiro, e nas peles que recebiam troco. Viva a higiene (tinha escrito viva a França, mas achei que ficava mal). Ou algo do género.
Tenho mau feitio. Além da constatação do óbvio, estas linhas não servem outro propósito que não o da espécie de confissão retorcida e essencialmente inútil, pois que a utilidade residiria na tentativa de afastar pensamentos maldosos quando estes ocorrem.
Sou irritadiça em certos momentos. Pois, bem vos ouço, e quem não o é? Não faço ideia. Ou melhor, conheço indubitavelmente pessoas que o não são, outras peritas na arte do disfarce.
Pois que me encontro numa sala de espera de consultório, esse local fabuloso e propenso à observação clínica além da óbvia que antecede. A minha. Não me irrita propriamente a espera, vantagem de ser uma fanática da leitura (o meu único vício são), que me poupa tempos mortos.
Abomino as… carreiras de cadeiras. Sabem, aquelas que estão unidas? Ah, abomino… cada troca de pernas de um dos expectantes com assentadura nesta coisa assemelha-se a um espasmo epiléptico. Que me irrita, claro. Porque me deixa mareada. Claro que o ficar mareada se deve muito mais ao mau feitio do que a um episódio de motion sickness.
Mas não basta. O monsieur sentado a meu lado está particularmente desconfortável e ansioso pela sua condição de expectante, (que pensar e temer se expectante fosse por nove luas até parir – como diz minha tia, se fossem os machos a parir, a humanidade extinguia-se num instante), pelo que se mexe como se tivesse pulgas. Buscando alívio para o seu nervosismo, dedica-se afincadamente a uma das partes do corpo que mais pena quando os nervos se destrambelham. Não…que pensavam? Não se peidou monumentalmente. As unhas, senhores, as unhas. Não as roeu, que isso seria estragar a cuidada manicure. Inicia pois, a escassos centímetros da minha pessoa, minunciosa limpeza das ditas cujas. Não olhes, continua a ler, vá, não sejas parva, és mesmo picuinhas, porra.
Pois, poderia perfeitamente permanecer indiferente a tal actividade, desde que fosse surda. Estalidos acompanham o acto de remoção da sujidade das unhacas. Algo longas.
Aproveito para informar que nem todos os machos lusos têm bigode e, alas, a unhaca longa do mindinho (esse precioso apêndice fruto da evolução, que se desenvolve de forma a auxiliar na higiene auricular) está em franca extinção. E depois ainda me perguntam porque creio em Deus.