O celular
Ahhh…aqui estou eu novamente. Peço desculpas às minhas amigas pela atitude blasé. Enfim, o retorno. Estou lendo um livro,que acredito já citei aqui.I dentidade. Livro interessante, instigante. Estou numa parte que o autor fala sobre a internet e toda a tecnologia virtual que faz o homem se sentir parte de uma comunidade. Para ele, esse sentimento cria uma ilusão de intimidade e um simulacro de comunidade. Pode até ser verdade isso, mas sabe que até gosto de sentir essa ilusão? O que seria de mim sem esse vínculo virtual que me alimenta e me mantém em contato, mesmo que ilusório, com um mundo que não faço mais parte? O autor acrescenta uma observação feita por Andy Hargreaves, um professor de educação e observador da cena cultural contemporânea, que achei interessante: “Em aeroportos e outros espaços públicos, pessoas com telefones celulares equipados com fones de ouvido ficam andando para lá e para cá, falando sozinhas e em voz alta, como esquizofrênicos paranóicos, cegas ao ambiente ao seu redor. A introspecção é uma atitude em extinção. Defrontadas com momentos de solidão em seus carros, na rua ou nos caixas de supermercados, mais e mais pessoas deixam de se entregar a seus pensamentos para, em vez disso, verificarem as mensagens deixadas no celular em busca de algum fiapo de evidência de que alguém, em algum lugar, possa desejá-las ou precisar delas.”Apenas uma observação. O professor Hargreaves definitivamente não conhece o Japão. Introspecção aqui é que não falta. Tá certo que aqui os celulares estão nas mãos em todos os momentos, quando não pendurados no pescoço, mas acredito que aqui os celulares também ajudam as pessoas a se esconderem de si próprias. E outra coisa: aqui é proibido usar celulares dentro de transportes públicos. No Brasil, a pessoa atende e fala da sua vida toda em alto e bom tom, sem qualquer inibição. “Oi Zé, e aí? Beleza? Pois é…você perdeu a festa ontem. Bebi todas e ainda vomitei no chão da casa do Cláudio…e ainda tinha umas minas da hora…blá…blá…blá…”
Politicamente incorrecta. Águinha e sabão azul – Parte I de sei lá quantas. Porque estou maldicente e pronto.
fevereiro 21, 2007
Maison fondée en 1913. Eh bien..
.
Tasca, típica, nem mais… Digo eu que lá se deve manjar bela açorda ou arroz de tomate com carapauzinhos fritos. Ou arroz de feijão. Hum…
Manguito pour vous
Por esta banda há muito quem fuja da aguinha, digo eu, excepto da de perfume. Em qualquer tasca de Portugal, por mais moscas que esvoacem, por mais sujo que o vidro do expositor de pastéis de bacalhau e rissóis esteja, pega-se nos ditos cujos com uma tenaz, essa fabulosa invenção, e atrevo-me a dizer que não é muito bem visto pegar directamente em comida e dinheiro, de seguida, ou em simultâneo, que Deus Nosso Senhor nos brindou, na maior parte dos casos, com duas mãos. Aqui uma prestimosa senhora na padaria não perde tempo munindo-se de luva de plástico, já estou como o outro, que não acreditava em fantasmas nem em germes, porque nunca vira nenhum dos dois. De seguida vêm os troquinhos, pois claro. Mas isso viria eu a constatar ser a mais inocente das badalhoquices. Quando a senhora da padaria se corta e sangra copiosamente, quiçá após trinchar um pão de forma, que as coisas querem-se já prontas e práticas, continua servindo o pãozinho aos clientes, que não se mostram chocados. A pessoa que me acompanhava ria à gargalhada perante a minha boca aberta, aproximando-se devido à minha palidez crescente, se desmaiasse estava ali para me amparar. Felizmente não entraram moscas. Na boca dele, claro. E talvez nem tenham entrado na Patisserie, que a finesse obriga a que se tenham dispositivos eléctricos destinados a electrocutar as esvoaçantes mosquinhas. Mas o sangue escorrendo do corte não faz mal.
Pouco tempo depois, aguardando meu irmão que chegaria de comboio a Montpellier, um gajo passa junto da estação, que como sabemos, costuma ser um local asseado, e vai degustando uma tarte de amêndoa, sem papelinho por baixo. Eis quando senão repara que tem o atacador solto, e ei-lo fresco da silva, pousando a tarte num beiral de janela coberto de caca de pombo, agachando-se e compondo a toilette, não vá ele cair no meio da sujidade da rua. Na minha estupidez penso, Olha que porco, não podia ter colocado a tarte no caixote do lixo ali ao lado? Está calada que fazes bem melhor, qual deitar fora qual quê, depois do sapato atadinho, a tarte segue goela abaixo, acompanhada de nutrientes extra que não vinham na receita original.
Isto já soa a saiolice da minha parte, bem sei, mas não sou nova em andanças, e devo dizer que aqui encontrei o conceito de higiene mais original de sempre.
Nesta residência é estrictamente proibido fazer barbecues, ah como abomino o estrangeirismo flatulento, ainda que cada casa esteja bem isolada em relação à seguinte, e não há por cá os ventos de Sines, colocar antenas, parar o carro à porta para descarregar meia tonelada de coisas, nem que seja por alguns minutos, e uma série de coisas que ainda não pude ler por estarem em letra muito reduzida, à entrada.
Ando com ganas de fazer uma sardinhada com pimentos assados. Vou encher-lhes a branca roupa estendida de odores honestos.