Hoje às 11:30 da manhã saía da sala de aula quando vi uma japonesinha conversando com um brasileiro. Ela falava bem o português e parecia muito simpática. Peguei meu carro e manobrava quando a vi novamente, desta vez subindo na bicicleta. Entusiasmada abri a janela e disse: Oi, oi. Vem vá. Ela veio, sorrindo. Perguntei-lhe então: De que cidade você é? Okinawa, respondeu. Ah, que legal! Eu tenho uma amiga brasileira que mora e leciona no Japão, em Osaka. Ela me mandou uns pincéis para sumiê, mas ainda não chegaram. Ah, disse a garota sorrindo. Eu trabalho aqui e apontei o centro onde ensino. Sou professora de italiano. Ah, mas você é italiana, perguntou a japonesinha. Não, não. Sou brasileira.
Depois foi cada uma para o seu lado.
Só mais tarde me dei conta da conversa doida! Abordei a garota de um jeito tão absurdo e ela achou tudo tão natural.
Deve morar há um bom tempo aqui. Ou já conhece minha fama de doida.
ps: cheguei em casa agora, às 19:00 hs e não é que os meus pincéis tinham chegado?!

pequeninos

março 7, 2007

Às vezes, quando moramos fora do país da gente nos sentimos pequeninos. No filme Babel há a cena do policial interrogando a empregada mexicana na fronteira que é um bom exemplo.
O Bush chega amanhã ao Brasil. E pela arrogância e tamanho da comitiva e toda a tralha que traz é prá gente se sentir bem pequenininho.
Ser humilhado é uma merda, mas na casa da gente é pior, né?

Quem é você?

janeiro 29, 2007

Estou lendo um livro do polonês Zygmunt Bauman. Identidade.Lá pelas tantas, o autor escreve sobre um cartaz que em 1994, foi espalhado pelas ruas de Berlim, ridicularizando a lealdade às estruturas que não eram mais capazes de conter as realidades do mundo. Dizia o cartaz: “Seu Cristo é judeu. Seu carro é japonês. Sua pizza é italiana. Sua democracia, grega. Seu café, brasileiro. Seu feriado, turco. Seus algarismos, arábicos. Suas letras, latinas. Só o seu vizinho é estrangeiro.”O cartaz de Berlim traz implícita a globalização , ao passo que a mudança na provável  resposta à pergunta “quem é você?” sinaliza o colapso da hierarquia (genuína ou postulada) das identidades.”Quem é você? No século XIX, as pessoas eram aquilo que tinham. Suas posses eram o seu maior cartão de visita. Aqui no Japão, você se apresenta para alguém já entregando o seu cartão pessoal. Você é o que está escrito naquele pequenino cartão de papel. Mero papel. O verdadeiro “eu” criado e recriado, afinal, você pode escrever o que quiser no cartão. O meu tem o status de “visiting professor”. Entregar esse cartão faz com que as pessoas formem um conceito sobre você. Em minha viagem pela Itália, não utilizei meu cartão pessoal. Tinha um outro cartão, muito mais poderoso e espinhoso. Meu passaporte. Passaporte brasileiro é um documento carregado de estigmas. O documento não fala nada de você, mas ao mesmo tempo, diz tudo. A origem, e concomitantemente, todos os pré-conceitos já por ora estabelecidos. Observava a reação de alguns italianos ao mostrar meu passaporte ou apenas quando falava que era brasileira. Falar que você é brasileiro, nos dá sempre a impressão que você tem que acrescentar algo, logo após sua nacionalidade. Um adendo. Sou brasileira E professora universitária. Na biblioteca de Roma, uma garota olhou com desdém meu passaporte. “Humph, brasiliana…” Está lá. Grafado no caderninho de capa verde. Já estava pensando em preparar um cartão: “Brasileira, sim. ALGUM PROBLEMA, MEU???

Neve era algodão colocado na árvore de Natal. Era um contorno branco sobre os telhados das casas dos desenhos animados de Natal. Era o interior do freezer indicando que era hora de descongelar a geladeira.
A primeira vez que a vi tinha 26 anos. E desde aquele dia, sempre que a vejo é como voltar a um janeiro na Serra da Estrela, em Portugal. E olha que eu já a toquei, rolei nela, caí nela e até a recebi de presente (sobre o teto do carro de um amigo alemão).
Não adianta. Continuamos mantendo uma relação estranha. Ela me faz sentir estrangeira.
E vocês? Há algo que sempre as(os) faz sentir estrangeiros?
Ps:Neve é algo muito exótico.

snow

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