babel

fevereiro 8, 2007

Tive a idéia do post a partir de uma histórinha que Fernanda contou no seu blog.
Em 1989 estudava na Università per Stranieri di Siena, instituição que até aquela época recebia muitos alunos dos EUA, da Alemanha, da Áustria, do Japão, mas poucos da América do Sul. Naquele ano havia duas turmas de cursos superiores. Na minha classe havia alemães, austríacos, americanos, uma japonesa, um suíço, uma senegalesa,uma uruguaia e eu. A outra era mais ou menos igual, mas havia um português.
No meio do curso resolvi fazer um curso de tradução. Era do espanhol ao italiano. Um dia, nossa professora, que era também a responsável pela outra turda do curso superior me disse duas coisas interessantes:
1. Que ficava impressionada com o nível de competência no italiano dos dois falantes de português (eu e o gajo , que depois se tornou um grande amigo até hoje). Tinha uma grande vontade de pesquisar o porquê. Para mim era óbvio que era porque o português era uma língua neolatina (coisa que muita gente esquece).
2. Que ao formarem as turmas tinham decidido nos separar porque havia o perigo de ficarmos falando português e não aprendermos nada.

Eu me pergunto: por que então os alemães, austríacos, suícos (eram todos do cantão alemão) estavam nas mesmas salas?

Eu e meu amigo nunca falavamos português quando havia estrangeiros por perto. Considerávamos uma falta de educação. Já nossos amigos alemães o faziam sempre. Os japoneses quando o faziam traduziam imediatamente para evitar uma situação desconfortável.

Havia outras coisas estranhas. Me diziam várias vezes que eu era uma pessoa culta porque sabia usar o subjuntivo. Ora, para um falante de português isso é fácil. Já um falante de inglês ou alemão tem mais dificuldade, pois não há o subjuntivo nas suas línguas. Eu achava muito engraçado e tentava explicar, mas nunca adiantou muito.
Na verdade não só pela aparência somos julgados, mas muito por como falamos. O conteúdo às vezes é colocado em segundo plano….

messy1.jpg

Primeiro era a água e o sabão azul. Deveriam seguir-se caixotinhos perfeitamente selados e identificados com etiquetas, lindamente caligrafadas. Desenganem-se, vou já avisando. A água e o sabão ficam, esses ninguém me tira, mas os cómodos desta habitaçãozinha cerebral são muito pouco arrumados.

E há, todavia, uma espécie de começo. Porque no fundo preciso de enganar até a mim mesma, dando uma impressão, pequenina, mas impressão, de algum tipo de ordem.

Há um perigo aqui. Relatando as minhas esperiências em terras gaulesas, a narrativa seria curta, logo se esgotaria, transformada que estou numa espécie de ermita em clausura algo auto-imposta, nada moderna, nada eu, nada comunicante com este mundo que me rodeia. E do qual pareço fugir. Logo, as perspectivas de ter novas histórias para contar não são muito animadoras, se me restringir ao tema acima mencionado. Digo tudo isto lamentando-o, na verdade. Não sou supostamente uma humanista? Não deveria mergulhar de cabeça na maravilhosa experiência da cultura do outro, bebendo a língua, banhando-me em novos mares? Eu, perpétua navegante mesmo quando queda, sei o mesmo francês que sabia quando aqui cheguei. Um razoável-bom nível de compreensão escrita. Miserável nível falado. Torna-se difícil melhorar numa língua da qual se foge um pouco, e sobretudo, uma língua que não se fala.

Eis o preço do meu radicalismo de coração. Descrito por muitos como doce e brando, mas a mim não engana ele, ah não! Conheço-lhe as manhas… Porquê a quase reclusão e clausura cultural? Claro, a razão ou des-razão está lá, no início, na chegada ao país, nas barreiras encontradas e não derrubadas, na falta de educação do músculo cardíaco e do tecidinho cerebral – encolhido nos preconceituosos.

No fundo também eu me tornei preconceituosa. Digo-o com tristeza. Depois enxoto a ideia, escrevo, não a letras gordas porque não me apetece pressionar o Caps, não quero passar a ideia de generalização aqui. Quero contar o que as minhas companheiras de viagem chamam de causos. E isso são. Causos. Não a realidade. Apenas uma fracção.

Aqui aportados, instalados numa profusão de caixotes e malas que ameaçam abrir a qualquer instante, de abarrotadas que estão (um carro com portugueses em viagem é facilmente reconhecido pelo recheio infindável de toda a espécie de tralhas – vide garotos à porrada no banco de trás e gaiola com periquitos à beira de um ataque de nervos, pensando que noutra vida terão sido feras culpáveis de muito assassinato. Ah, está a olhar para aquele volume branco, obeso na base e que vai estreitando para cima? Ora essa, é o garrafão de vinho carrascão, que pergunta… Cá estão eles, os nossos velhos esterótipos. Segundo o namorado, o carro luso distingue-se do árabe apenas num ponto. Eles levam a tralha também no tejadilho da carripana.

Os caixotes e malas gordas aguardavam num aparthotel, quando nos lançamos em busca de , naturalmente, uma casa onde morar. A empresa fornece (quer dizer, direcciona-nos para) uma empresa de tradução e ajuda à integração no país, tratando de aspectos burocráticos, documentação, abertura de contas e – voilá – em busca de habitação.

Após algumas visitas a casotas, um apartamento convenceu-nos, apesar do namorado ter ficado horrorizado pela profusão de papel de parede kitsch que adornava as paredes. Já eu borrifei-me para o papel de parede. Além da renda ser acessível, o apartamento estava todo mobilado, ficava numa residência segura, tinha jardim por trás, não se ouvia barulho algum do trânsito, e sobretudo não o dlim dlim do tram que nos infernizava as noites no aparthotel. Toda a conversa entre nós, a imobiliária e o nosso agente da empresa de integração decorria em inglês. Até a agente imobiliária ter começado a questionar àcerca da nossa proveniência. Não era, no entanto, a comum pergunta que surge naturalmente numa conversa, così. Foi o que me pareceu desde o início. Infelizmente não me enganei. Quando o nosso agente de integração começou a contactá-los para que resolvessemos pormenores de aluguer, para que nos pudessemos mudar o mais rapidamente possível, recebeu respostas evasivas. O apartamento não estava disponível. Desde desculpas esfarrapadas que incluiam a cara feia que o namorado fez em relação ao papel de parede até ao facto de os donos ( irlandeses) que afinal poderiam estar de regresso à cidade mais cedo do que fora inicialmente previsto – o nosso agente não ficou convencido. Escavando um pouco, acabou por arrancar da agente imobiliária que não nos podiam alugar o apartamento por sermos portugueses. Perante a estupefacção do nosso agente, a cool Southerner from Virginia que é bilingue e mora em França desde criança, referiram que tinham alugado uma casa a uns trabalhadores da mesma empresa do meu namorado, espanhóis, que haviam deixado a habitação num estado deplorável.

Não sei o que enfureceu mais o meu namorado, mas suspeito que tenha sido a inclusão no mesmo saco com nuestros hermanos.

Já eu, cada vez gosto mais de espanhóis.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.